Direito Islâmico e Inglês – aula 05/09

DIREITO ISLÂMICO

Tal como ocorre com o Direito Canônico e com o Direito Hebraico, o Direito Islâmico também se encontra adstrito ao rol dos direitos religiosos. Direito que resulta da religião islâmica e que é base de vida de cerca de um quinto da população mundial. A religião islâmica cresce em todo o mundo e é um instrumento de unidade de diversos países. 

Origens da Religião Islâmica

O Islã surgiu na Arábia em pleno Século VII d.C., na região localizada na junção da Ásia e de África, entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Índico.

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Inicialmente, tratou-se de um movimento político-religioso.

A região central da Península Arábica é formada por desertos repletos de áreas pedregosas, dunas, rios secos e oásis que apresentam poços de água no meio de uma vegetação luxuriante.

beduinos-no-desertoAnteriormente ao Islã os beduínos eram politeístas, sendo os seus deuses representados por ídolos depositados no santuário da cidade de Meca no templo Caaba, local de intensa peregrinação anual. Meca era um importante centro comercial árabe e cidade com forte apelo religioso, em que se localizavam o poço sagrado de Zen-Zen, o Vale da Mina, o Monte Arafat e a Caaaba.

Meca é uma cidade da Arábia Saudita considerada a mais sagrada no mundo para os muçulmanos, situada na província homônima. A tradição islâmica atribui sua fundação aos descendentes de Ismael.

Por que Meca é tão importante para o islamismo?

Porque ali fica o santuário de Ka’bah, construído no segundo milênio antes de Cristo. Segundo a tradição islamita, Ka’bah é o único local da Terra que as forças celestes teriam tocado. Foi também em Meca que nasceu e está enterrado Maomé (570-652), fundador da religião islâmica. Situada na Arábia Saudita, a cidade já era ponto de parada de caravanas e centro comercial antes de Maomé. Mas os maometanos, também chamados de muçulmanos, que hoje são cerca de 1 200 milhões espalhados pelo mundo, a converteram em sua capital. De acordo com os preceitos religiosos, todo fiel tem o dever de visitá-la ao menos uma vez antes de morrer. Além disso, onde quer que estejam tem que rezar cinco vezes ao dia voltados para lá. “E a oração do meio-dia de sexta-feira precisa que ser feita em uma mesquita, que sempre é construída em sua direção”, diz o professor de Línguas Orientais Helmi Nasr, da Universidade de São Paulo.

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A Fundação do Islamismo

Suleiman2O Islamismo tem como fundador Mohamad, nome que foi aportuguesado para Maomé. Maomé nasceu em Meca no ano de 570 d.C. e faleceu em 632 d.C. Segundo a tradição religiosa, Maomé recebeu uma revelação divina por intermédio do anjo Gabriel, que deu origem aos versos do Alcorão. Após um período em Medina, Maomé tomou Meca, destruiu os seus ídolos e transformou a Caaba no centro religioso do Islamismo.

muhammad_khadija1Maomé se casou pela primeira vez aos vinte e cinco anos de idade com uma viúva rica de quarenta anos, a qual já tinha dois casamentos anteriores, portanto quinze anos mais velha que ele, chamada Khadija. Ela o colocou na administração dos seus negócios, uma vez que até então ele não possuía trabalho fixo, como um agente comercial, e pelos relatos nas biografias, ele se saiu bem. Os críticos percebem neste evento o oportunismo de Maomé em casar-se por dinheiro, é o que alguns denominam através da expressão popular de “golpe do baú”.  Seu casamento com Khadija durou vinte e cinco anos, até o falecimento de sua esposa aos sessenta e cinco anos de idade. Durante todo o seu período de casado, ele não teve nenhuma outra esposa e viveu dos negócios da empresa comercial da mulher. Pois, como observa Anwar Hekmat: “Khadijaera uma mulher muito capaz e rica, e em vista do fato que ela era de um clã influente de Meca, é muito provável que ela tenha estipulado uma cláusula no seu contrato de casamento evitando que seu marido casasse com outra mulher. Antes, as mulheres islâmicas na Arábia eram mais independentes do que elas são hoje no Islã. (…) Financeiramente, Maomé era muito dependente de sua rica esposa, mas é claro que ela não teria suprido ele com meios bastantes para se casar com outra mulher” (Hekmat, 1997: 41).  Do que foi dito acima, não é difícil deduzir que Maomé, durante os anos que conviveu com Khadija, se comportou como um marido bem submisso da esposa, muito diferente da orientação no Alcorão IV: 34: “Os homens têm autoridade sobre as mulheres pelo que Deus os fez superiores a elas e que gastam de suas posses para sustentá-las…”.

O Direito Islâmico e as suas fontes

  • Alcorão (livro mais sacro do universo islâmico)
  • Suna (conjunto de ditos e feitos atribuídos ao profeta Maomé)
  • Idjmâ (acordo unânime dos doutores com o assentimento geral da comunidade)
  • Qiyâs (raciocínio por analogia)
  • Costume
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Alcorão

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A importância da Suna é enorme para os muçulmanos, pois, notavelmente, somente perde em importância para o Alcorão. É considerada uma fonte secundária, mas não menos importante. Nesta religião, a palavra de Allah [Deus] está no sagrado Alcorão e a Suna seria a forma encontrada por Maomé para disseminar, ensinar e aplicar o Islã.

 

De acordo com o alcorão, veja algumas punições hudud:

  • Zinā: O Alcorão ordena que homens e mulheres que se envolvem em fornicação sejam açoitados 100 vezes (Alcorão 24: 2), e hadiths acrescentam que se a pessoa é solteira e nunca foi casada, então eles também devem ser exilados por um ano. A escola de direito Hanafi não aceita a punição adicional do exílio porque não considera os hadiths em questão como provas suficientemente fortes para alterar a decisão do Alcorão. Foi acordado por todas as escolas de direito muçulmanas que a punição do Alcorão aqui referida era para pessoas solteiras. Homens e mulheres casados culpados de adultério são punidos com apedrejamento, como demonstrado na Sunna do Profeta.
  • Sariqa: O Alcorão especifica que o ladrão,homem ou mulher, deve ter sua mão cortada “como um requital pelo que fizeram e como um desencorajamento ordenado por Deus” (Alcorão 5:38).
  • Qadhf: O Alcorão ordena que qualquer um que acuse alguém de adultério e não forneça quatro testemunhas do ato alegado deve ser chicoteado 80 vezes e nunca mais deve ter seu testemunho aceito (Alcorão 24: 4).
  • Shurb al-Khamr: Embora o Alcorão proíba beber vinho (khamr) e intoxicação, a punição por beber vem da Sunna. Os Hadiths mais confiáveis afirmam que o Profeta ﷺ teria uma pessoa açoitada 40 vezes por intoxicação, mas os califas Omar e Ali posteriormente aumentaram para 80 após consulta com outros Companheiros.
  • Ḥirāba: Este crime é entendido como exposto na condenação do Alcorão de “aqueles que fazem guerra a Deus e Seu Mensageiro e procuram espalhar danos e corrupção na terra”. O Alcorão dá-lhe a punição mais severa no Islã: crucificação e /ou amputação das mãos e pés (Alcorão 5:33). A grande maioria dos estudiosos muçulmanos sustentou que esse versículo foi revelado depois que um grupo de homens haverem brutalmente cegado, mutilado e assassinado um pastor e, em seguida, roubado seus camelos. O Profeta ﷺ ordenou que os assassinos fossem punidos exatamente da mesma maneira. Entretanto, estudiosos proeminentes estavam céticos em relação a relatos de que ele realmente havia ordenado que as mãos ou os pés dos assassinos fossem cortados. Este desacordo entre as punições ordenadas pelo Alcorão e pelo Profeta ﷺ pode ter sido porque a ordem do Profeta ﷺ veio antes do versículo ser revelado, mas a ambigüidade é geralmente entendida como ilustrando que o governante / Estado tem discrição na decisão da punição adequada por ḥirāba.

O que é o Ramadã?

O Ramadã é o nono mês do calendário islâmico, no qual se acredita que o profeta Maomé recebeu a revelação da parte de Alá (como os muçulmanos denominam o Deus Todo-Poderoso), dos primeiros versos do Alcorão 

De acordo com o islã, Maomé caminhava pelo deserto, perto de Meca, 610 d.C., onde atualmente localiza-se a Arábia Saudita. Certa noite, uma voz vinda do céu o chamou. Segundo a tradição islâmica, era a voz do anjo Gabriel que disse a Maomé que este havia sido escolhido para receber a palavra de Alá. Nos anos posteriores, foi também através do anjo que a revelação de Alá foi transmitida a Maomé, que começou a pregar os versos que seriam transcritos e comporiam o livro sagrado islâmico.

O jejum do Ramadã é um dos cinco pilares da fé islâmica e é obrigatório para todos os seus seguidores. Trata-se de um tempo especial em que os muçulmanos se reúnem em oração e é considerado uma oportunidade especial para reviver, renovar e revigorar sua prática de fé.

A palavra Ramadã tem origem na palavra árabe “ramida” que significa “ser ardente”.

Quando acontece o Ramadã
O início do Ramadã em cada ano é baseado na combinação das observações da lua e em cálculos astronômicos. Seu término é determinado de maneira semelhante. Pelo fato de o islamismo usarem o calendário lunar (que é onze dias mais curto que o calendário solar adotado na maior parte do mundo ocidental), o período sagrado do Ramadã varia de ano para ano, o que significa que o jejum pode ser celebrado em diferentes meses e estações.

Quem deve cumprir o jejum
O jejum é obrigatório para todo muçulmano que tenha atingido a puberdade e que goze de perfeita saúde física e mental. O primeiro jejum de uma pessoa na comunidade muçulmana é algo para celebração e festa. As grávidas, lactantes, mulheres no período menstrual, crianças, idosos e aqueles que estiverem doentes ou viajando, são dispensados de praticar o jejum.

A isenção temporária do jejum é baseada nas circunstâncias individuais, que precisam ser analisadas durante o mês e, aconselhadas por um imã (líder religioso) ou por um estudioso islâmico. No entanto, na maioria dos casos, os dias de jejum perdidos terão de ser compensados por um número igual de dias, a qualquer momento antes do próximo Ramadã. Em caso de doença terminal ou incurável, a pessoa deixa de jejuar definitivamente, porém, se tiver condições, precisa dar uma refeição a um necessitado para cada dia não jejuado, ou o equivalente ao valor de uma refeição. Do contrário, não está obrigada a nada.

A prática e seus significados
O jejum é feito por cerca de 29 dias entre o nascer e o pôr do sol. O dia começa com o suhoor, uma refeição feita ainda de madrugada, e termina com o iftar, a refeição que quebra o jejum do dia. É um momento de celebrar com a família e os amigos, ocasião em que pessoas de outras religiões podem ser convidadas a participar. Se alguém comer, beber ou tiver relações sexuais durante esse período, deverá alimentar 60 pobres ou jejuar por 60 dias.

Há duas grandes celebrações importante durante o período. Na noite do 26º para o 27º dia do Ramadã, celebra-se o laylat al-kadr (noite do poder ou noite do decreto), pois acredita-se que foi nessa noite que Alá começou a falar com Maomé. Alguns oram durante toda a noite e fazem seus pedidos mais especiais a Alá. No fim do jejum ocorre o eid ul-fitr, um banquete seguido de três dias de comemoração, quando é proibido jejuar. Muitos muçulmanos vestem suas melhores roupas e decoram suas casas com luzes e outros enfeites. Dívidas antigas são perdoadas e dinheiro é dado aos pobres. Preparam-se alimentos especiais e convidam-se amigos ou parentes para partilhar a festa. As crianças recebem presentes e há troca de cartões, algo semelhante ao Natal comemorado nos países ocidentais. Eid al-Fitr é uma ocasião alegre, mas seu propósito primordial é de louvar a Alá e dar graças a ele, segundo a crença islâmica.

As implicações do Ramadã no cotidiano
Durante o mês de jejum verifica-se o aumento no preço de vários produtos em países de maioria islâmica, o que acrescenta grande sofrimento para o povo mais pobre. Isso acontece porque durante as noites do Ramadã as pessoas ficam acordadas, celebrando e indo à mesquita para uma oração especial. O resultado é o aumento do consumo de alimentos, apesar da aparente contradição por ser um mês de jejum. Acontece que cada noite é uma espécie de ceia natal, e, por isso, os muçulmanos consomem mais alimentos e artigos de luxo durante o período do que em outras épocas do ano. Devido à alta demanda dos gêneros alimentícios, muitas vezes não é possível manter os preços baixos. É claro que isso não afeta apenas os muçulmanos, mas toda a população.

Em muitos países do mundo muçulmano, não praticar o jejum ou comer na frente de alguém que está jejuando é uma falta grave. Na Arábia Saudita, por exemplo, quem ousar admitir que não esteja jejuando é punido.

No Marrocos, o código penal prevê pena de até seis meses de prisão a quem não praticar o jejum. A Constituição marroquina ressalta que o islamismo é a religião oficial, mas diz também que o Estado protege a liberdade religiosa, enquanto o código penal criminaliza a quebra do jejum em público. Dessa forma os indivíduos são obrigados a praticar o Ramadã por dois motivos: pela lei e pela religião.

Nos Emirados Árabes Unidos, comer ou beber durante o dia é considerado uma ofensa menor e punida com serviços comunitários. Lá, as leis trabalhistas estabelecem que durante o Ramadã os empregados trabalhem apenas seis horas por dia, sejam eles muçulmanos ou não.

Os cristãos de origem muçulmana precisam ter muita cautela, principalmente no período do Ramadã. Eles podem facilmente incomodar os muçulmanos do país, mesmo que ajam com amor e piedade. Considerados apóstatas, esses cristãos são frequentemente expulsos de suas comunidades, deserdados e desprezados por suas famílias, e muitas vezes ameaçados de morte. Muitos ataques a igrejas e a cidadãos cristãos costumam acontecer nos últimos dias do Ramadã.


DIREITO INGLÊS

POVOS+CELTASOs celtas habitaram a ilha desde tempos remotos, tendo chegado à ilha em meados do Século VII a.C., recebendo posteriormente o nome de bretões.

musica celta, instrumentos  norte da Espanha ainda hoje tem uma forte… Portugal… belgas betones em Inglês instrumento gaita folin. os celtas faziam cultos de magia negra que amedrontavam os soldados romanos. romanos temiam a morte assim… saxos e anglo… 

A conquista romana iniciou-se com as campanhas militares de Júlio César em 55 a.C., porém só foi se concluiu pelas investidas do Imperador Cláudio em 43 d.C.

Até ao Século V, Inglaterra foi domínio romano, entretanto não houve um processo de romanização. A partir do fim do Império Romano do Ocidente, destaca-se que os povos  germânicos, designadamente os anglo-saxões invadem a Bretanha, tal como navegadores vikings.

Sistemas legais concorrentes

The Mercen Lege (formado por um conjunto de leis desenvolvidas pelos mais antigos habitantes da ilha, regras profundamente mescladas aos costumes druidas, parte do Direito Celta)

Leis saxônias (em voga na parte setentrional e ocidental da ilha, de Kent a Devonshire)

Direito dinamarquês (vigente nas terras centrais e na costa oriental)

aula de 12/09 até aqui


Aspectos históricos

  • A Invasão Normanda
  • Criação dos condados
  • Magna Carta de 1215
  • Parlamento Inglês
  • Guerra das Duas Rosas
  • Reinado de Henrique VIII
  • Bill of Rights

O Direito consuetudinário constitui-se como o fundo tradicional do Direito Inglês (não a lei escrita), porquanto é ao costume imemorial que o juiz inglês, na ausência de texto votado pelas assembléias parlamentares, deve ir buscar a regra aplicável ao fato da causa. A regra existe algures, assim está admitido ou supõe-se. Common Law consubstancia-se num Direito com base jurisprudencial forjado no precedente judiciário, que corresponde em sua origem ao costume imemorial, consagrado e perpetuado pela jurisprudência.

É o sistema de Direito em voga em Inglaterra, País de Gales, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, nos Estados Unidos e na maior parte do Canadá e nos países que compõem a designada “Commonwealth”, a Comunidade Britânica de Nações. A lei (statute Law) constitui, em relação ao Direito comum e, em certo sentido, um Direito especial que só disciplina as matérias que contempla e só  em relação a estas prevalece. O sistema da Common Law começou a ser formada a partir do Direito originado em Inglaterra, com as atividades dos Tribunais Reais de Justiça, após a conquista normanda.

Os Tribunais de Westminster produziram as primeiras coleções jurisprudenciais da história de Inglaterra, fontes estas constituídas pela emissão de decisões amparadas nos costumes.  A formação da Common Law ocorreu entre 1066 e 1485. A Equity, caminhou paralelamente com a Common Law durante alguns séculos. Somente com as determinações estipuladas nas Judicature Acts, entre 1873 e 1875, ocorreu a fusão dos dois sistemas. Consubstanciava-se no acesso dos cidadãos ao “Chanceler”, uma espécie de funcionário real que tinha por prerrogativa a distribuição da justiça.

 

Conhecendo os Celtas

Falar a respeito de como era a vida, as estruturas sociais, as leis, as estruturas de governo, a religião dos celtas, etc., é uma tarefa difícil, pois os celtas não foram um povo único em si, mas sim um conjunto de povos ligados pela língua céltica e alguns outros costumes, os quais viveram na Europa antiga, posteriormente sendo assimilados pelos romanos e seu império. A respeito disso, trato melhor desse assunto em Os Povos Celtas.

A proposta desse texto de agora é falar a respeito de como alguns desses povos, especialmente os gauleses e os irlandeses foram retratados na História e como eram seus modos de vida, suas estruturas sociais, políticas, religiosas, judiciais, etc. Embora, houveram outros povos, mas devido ao fato dos mesmos não terem possuído um alfabeto escrito mais elaborado (com exceção dos irlandeses), e posteriormente terem sido assimilados pela cultura romana, as melhores fontes que temos sobre seus costumes advêm de historiadores gregos, romanos e irlandeses, sendo no caso dos irlandeses, estes são descendentes de tribos celtas-bretãs que se estabeleceram na Irlanda por volta do século VI a.C.

Para não deixar o leitor de primeira viagem em confusão, os Povos Celtas eram basicamente divididos em:

  • Tribos Gaulesas
  • Tribos Celtiberas
  • Tribos Bretãs insular (bretãos, irlandeses e escoceses).
  • Tribos Gálatas
Mapa retratando a máxima extensão dos territórios dos Povos Celtas no século III a.C.
Vale ressaltar que embora sejam chamadas de tribos gaulesas e assim por diante em respeito aos demais casos, havia várias tribos vivendo nas Gálias, pois o uso do termo gaulês referia-se como um gentílico genérico para designar qualquer celta que habita-se as Gálias, não necessariamente referia-se em se dizer que ele pertenciam a um povo gaulês em si, pois nas Gálias houveram mais de trinta tribos gaulesas. E cada tribo se reconhecia como sendo um povo próprio.

A aparência dos celtas

Uma questão interessante diz respeito de como era a aparência dos celtas, nesse caso os melhores relatos que possuímos dizem respeito aos gauleses, as tribos celtas que habitavam a vasta região chamada de Gália ou Céltica que hoje corresponde em grande parte ao atual território da França, embora que no passado a Gália fosse bem mais extensa. O historiador e geógrafo grego Políbio (203-120 a.C) descreveu algumas características dos celtas, provavelmente ele teve acesso a retratos falados, pois algumas tribos celtas chegaram a atacar o norte da Grécia no século III a.C., antes de serem expulsas para a Ásia Menor.
Políbio nos conta que os gálatas (termo também utilizado para se referir aos celtas) eram guerreiros fortes e bravos, tinham uma estatura mais alta do que dos gregos, e um porte físico mais acentuado; possuíam a pele mais branca, e entre seu povo era mais comum haverem pessoas de cabelos louros e olhos claros, pois em geral os gregos antigos e os romanos eram na maioria morenos e de olhos escuros. A estatura média dos homens era em torno de 1,60 a 1,65. Acredita-se que os gauleses tivessem um estatura média de 1,75, daí entre os romanos, os mesmos irem até as Gálias buscarem escravos para serem gladiadores, pois eram mais altos e mais fortes, algo que os germanos também se equiparavam.
EstrabãoDiodoro de SiculoPlínio entre outros historiadores, geógrafos e estudiosos gregos e romanos, também compartilham dessa similaridade. Nesse caso, eles diziam que as mulheres celtas eram mais altas do que as mulheres romanas e gregas, e muitas eram louras e até mesmo havia algumas ruivas. Porém, a ressalva que deve ser feita aqui, é o fato de que como os celtas se espalharam pela Europa, em alguns casos, seus traços físicos mudaram devido a miscigenação com outros povos. Por exemplo, os celtiberos, as tribos que viviam na Península Ibérica, não seriam tão iguais aos gauleses, eles seriam mais morenos e teriam olhos escuros. Por sua vez, os gálatas que viviam na Ásia Menor, mas que também eram celtas, possuíam suas diferenças, por terem se miscigenado com povos do Oriente Médio.
Cópia romana da estátua grega O Gaulês Agonizante, esculpida no século III a.C, para simbolizar a vitória da colônia grega de Pérgamo sobre os gálatas. A estátua é uma das representações mais antigas conhecidas acerca da aparência dos celtas da Galícia.

Outro aspecto notável da fisionomia desses povos eram os cortes de cabelo e no caso dos homens da barba e dos bigodes. Os relatos romanos e gregos contam que era comum entre os homens celtas deixarem os cabelos ficarem longos, além disso, alguns tinham cabelos encaracolados, cacheados e até mesmo chegavam a fazer tranças. O uso de bigodes era comum entre muitas das tribos que formavam esses povos, geralmente os chefes deixavam os bigodes ficarem bem grandes, como forma de se destacarem socialmente.

O uso de cavanhaque era comum, já a de uma barba mais espessa e longa, era reservado mais aos idosos ou aos druidas. Normalmente os homens faziam a barba, mas mantinham os bigodes. Além disso, os relatos antigos dizem que os homens e as mulheres costumavam passar uma espécie de óleo para untar os cabelos e deixá-los puxados para trás, embora hoje alguns historiadores contestem se isso realmente era uma prática dos celtas, ou foi um mal entendido que os gregos e romanos interpretaram.

A respeito dessa aparência dos celtas, tais aspectos reforçavam a noção que os romanos e os gregos tinham deles como bárbaros, mas principalmente os romanos. Entre os romanos era normal e até mesmo uma conduta social, os homens manterem os cabelos curtos e a barba feita, embora que entre os plebeus houvessem homens que usassem bigodes e barba, mas os cabelos longos não eram habituais entre os romanos. Para eles, a aparência dos celtas ajudava a corroborar sua ideia de serem bárbaros. Homens que deixavam os cabelos crescer e não se barbeavam com regularidade, não tinham aspecto de “civilizados”.
O vestuário

A forma como os celtas se vestiam fora inicialmente uma outra maneira para conceber nestes por parte dos romanos e dos gregos a identidade de bárbaros. Homens e mulheres usavam túnicas (léine) geralmente feitas de linho ou de lã. No caso dos nobres alguns chegavam até mesmo a usarem roupas de seda, produto este vindo da Ásia Menor. Dependendo do lugar as túnicas poderiam ter mangas curtas, longas ou não terem mangas. As túnicas dos homens iam até a altura dos joelhos, já as das mulheres eram mais longas, chegando aos tornozelos.

As túnicas eram presas por um cinto ou cinta (criss). Homens e mulheres também usavam uma pequena capa (brat) geralmente feita de lã e em formato retangular. Além dessas capas curtas eles também usavam capas longas e outros tipos de tecidos nos quais usavam para formar capas ou laços nas roupas, os prendendo com alfinetes feitos de bronze. As mulheres também usavam vestidos e no caso dos homens esses também usavam calças (bracae). Os celtas calçavam sandálias e sapatos. Políbio diz que os celtas usavam roupas coloridas, diferentes das roupas unicolor geralmente usadas pelos romanos e gregos.

No caso dos trajes militares, pelas descrições que temos de Políbio, Dionísio e Estrabão, a maioria dos guerreiros celtas (pelo menos os que lutaram na Itália), usavam apenas calças e sandálias. Alguns usavam as capas curtas, mas  em geral lutavam sem camisa (claro que durante épocas frias, eles usariam blusas). No caso dos líderes, esses ou se trajavam iguais a seus soldados, ou usavam túnicas, calças, e até mesmo cotas, além de elmos. Em alguns casos os soldados também usavam túnicas e calças, e num caso mais específico, os gaesatae (lanceiros) lutavam nus.

Desenho retratando guerreiros celtas da Gália.

Estrabão e Diodoro relatam que os celtas gostavam de usar adornos como braceletes, anéis, colares, brincos e broches. No caso dos homens, estes usavam braceletes feitos de bronze, ferro, ouro ou prata, além de usarem anéis e colares, sendo que em especial havia um colar chamado torque, no qual era apenas usado pelos homens, sendo feito geralmente de ouro, bronze e as vezes de ferro e prata. Os historiadores acreditam que o torque seja de influência asiática, pois os persas utilizavam colares similares, possivelmente os celtas devem tê-lo visto a partir de algum povo do leste europeu que tinha contato com os asiáticos. Os homens não tinham costume de usarem brincos.

As mulheres também usavam diademas. No entanto, posteriormente as mulheres também passaram a usar o torque, como atestam tumbas de rainhas ou mulheres nobres que foram sepultadas utilizando tal colar. Além disso, sabe-se que o torque também era retratado como sendo um adorno utilizado pelos deuses celtas.

Um torque em ouro. Os torque eram colares usados apenas pelos homens celtas de algumas. Embora que nem todos os povos celtas faziam uso dele.
No caso dos romanos, o fato dos celtas usarem calças era algo que lhe condizia com a identidade de bárbaros. Pois os povos que viviam nas orlas do Mediterrâneo não tinham o costume de usarem calças, eles usavam túnicas, saias, etc. Logo, era atribuído pelos romanos apenas os povos que viviam para o interior do continente o fato de usarem calças e nesse caso, para eles todos esses povos eram bárbaros. E o ato dos gaesatae lutarem nus, era ainda mais um indício para os romanos que tais homens eram bárbaros.
Organização social
Júlio César em seu Comentários sobre a Guerra da Gália, escreveu que a população gaulesa se dividia em três classes: os druidas, os quais formariam uma espécie de classe sacerdotal; os cavaleiros (equits) que seriam os nobres; e os plebeus, os quais seriam o restante da população. Evidentemente César fizera essa descrição julgando os gauleses a partir da ideia de divisão social que ele possuía dos romanos.
Entretanto a divisão social dos gauleses e dos demais celtas não fora tão diferente assim como César supôs. A respeito da realeza muito se desconhece, sabe-se que reis celtas foram predominantes entre as tribos insulares (bretões, irlandeses e escoceses) porém entre os gauleses, celtiberos e gálatas, pouco se conhece a respeito de reis e rainhas. Acredita-se que por volta do século IV a.C os reis celtas das tribos do continente, foram substituídos por uma aristocracia que conquistou poder através da guerra e da posse de terras, pois entre os celtas nunca houvera uma identidade nacional de um Estado unificado, na realidade o que chamamos de GáliasCeltiberiaBretanhaGalácia, etc., eram regiões onde habitavam várias tribos celtas e cada tribo possuía seu líder.
Mas embora se desconheça a existência de uma realeza celta antiga, pois na Irlanda, ilha na qual atribo dos bretões colonizou, chegaram a se formar pequenos reinos como o próprio Powell (1974) atesta. De qualquer forma a estrutura social dos celtas era baseada no patriarcalismo e em núcleos familiares (fine), pois muitos dos celtas viviam em vilas ou em aldeias, pois as cidades celtas ainda eram poucas. Havia também a existência de fortes ou fortalezas, essas eram mais comuns na Gália. As vilas célticas na Irlanda eram chamadas de túath, onde cada um possuía seu líder e de certa forma cada família possuía direitos e deveres. Em alguns casos, o túath poderia conter um forte, onde viveria a nobreza ou a família aristocrata governante.

Ilustração de uma aldeia celtibera.

No caso dos celtas-irlandeses, cada família de um túath era responsável por cada membro de sua família. Se algum membro da família comete-se algum tipo de crime ou desfeita, era atribuída a culpa a toda a família e a mesma deveria providenciar a punição do culpado ou a recessão sobre os danos. Além disso, Powell diz que entre os celtas independente de sua posição social, existia o chamado“preço de honra” (lóg n-enech), onde era medida a dignidade desse indivíduo e sua fortuna, pois a fortuna de um homem era algo importante em algumas sociedades celtas, pois embora um homem pudesse ser justo e honesto, ele deveria possuir uma fortuna razoável para se ver em uma posição confortável em sua sociedade.

Para se entender melhor essas questões sobre a estrutura social dos celtas, a mesma basicamente poderia ser dividida nas seguintes classes, embora houvesse diferenças entre alguns povos celtas:

  • Druidas
  • Nobreza
  • Aristocracia
  • Plebe
  • Escravos
Os druidas como será visto mais especificamente a frente, formavam uma classe ou grupo ligado as questões religiosas mas também a tradição, estando ligados a questões políticas e judiciais, embora nota-se que os druidas necessariamente não cuidassem de questões do governo propriamente. A nobreza advinha de antigas linhagens as quais chegaram a se ramificar, gerando outras tribos; por sua vez a aristocracia poderia ser formada tanto por nobres ou por famílias que ganharam poder através da guerra ou por alianças. Os plebeus seriam o restante da população, agricultores, pastores, artesãos, comerciantes, soldados, etc., por fim havia os escravos.
Entre os celtas havia também a prática da clientela (célsine), prática esta também realizada pelos romanos, porém no caso dos celtas a clientela era diferente. Enquanto entre os romanos, osclientes (céle) eram plebeus que procuravam oferecer seus serviços a um patrício ou a fim de pagarem alguma dívida se sujeitavam ao trabalho para essa pessoa, ao mesmo tempo, os clientesromanos perdiam o direito a propriedade e tinham o direito de liberdade restrito. No caso dos celtas aclientela não seria uma “prestação de serviço” como visto entre os romanos, mas sim uma aliança. Plebeus e aristocratas poderiam ser clientes de outros aristocratas, nobres e até de plebeus, no caso de plebeu para plebeu.

Nesse caso, a clientela era um acordo de ajuda onde um homem recorria ao apoio de outros para resolver determinada questão. Geralmente a clientela estava ligada a questões militares, no entanto, embora se fosse para prestar outro tipo de serviço, o cliente manteria seus direitos a propriedade e a liberdade, e terminado seu trabalho ele receberia uma recompensa ou pagamento.

clientela também poderia ser feita para saudar o “preço de honra” ou pagar uma fiança, dívida ou até mesmo um resgate. Powell conta que houve um caso que uma tribo de celtas atacaram os romanos na Província, região que os romanos conquistaram no sul da Gália, porém tal tribo fugiu, então os romanos cobraram de outra tribo celta que integrassem os culpados, mas devido a dívida de honra e as alianças entre tais tribos, ambas se puseram contra os romanos.

A respeito da escravidão não se sabe muito a respeito de como essa procedera entre os diferentes povos celtas. Sabe-se que os gauleses comercializavam escravos com os romanos, mas geralmente os escravos eram prisioneiros de guerra, sendo estes provenientes de outros povos ou de tribos mais afastadas.

 

A família

Pelo fato de viverem em tribos, os laços familiares eram bem mais próximos. A maioria dos celtas viviam da agricultura e da pecuária, logo toda a família ajudava na lavoura e no cuidado dos animais. Cada família possuía suas próprias propriedades que eram passadas hereditariamente. Sabe-se que na Irlanda, as mulheres também tinham direito a posse da terra, pois nos casamentos, as noivas possuíam parte do dote, sendo esse dote representado pelo seu direito por terras, embora fosse uma fração pequena, já era um progresso para o direito da mulher.

Além disso, como já fora dito, a sociedade era patriarcal, logo o chefe da casa era responsável por todos e pelo nome e honra de sua família em sua comunidade. Um fato a mencionar é que não se sabe ao certo se a propriedade da terra era coletiva ou privada, pois o direito de posse que as famílias tinham sobre a terra, era o direito de nelas trabalhar, mas não para acumularas e deixá-las “ociosas”; sabe-se também que a aristocracia parecia também não ter direito sobre tais terras, no sentido de a ela tais terras pertencerem. Mas ao mesmo tempo as terras não seriam coletivas, os historiadores acreditam que os celtas empregassem um sistema misto como visto entre alguns povos asiáticos.

Numa tribo, cada família possuía suas responsabilidade; para via de exemplo, se houvessem artesãos, estes trabalhariam em sua especificidade, se houvessem soldados, estes serviriam, se houvessem agricultores e pastores, estes iam trabalhar no campo, e assim por diante. Todos possuíam deveres e direitos. No caso dos direitos, Powell aponta que as leis celtas eram transmitidas oralmente e eram debatidas pelos senhores de cada comunidade, em alguns casos, os druidas faziam a transmissão dessas leis, pois a eles estava associado a preservação e continuação dos saberes dos antepassados. Na Irlanda por volta do século V d.C, já existiam “escolas de Direito”, onde os filhos da nobreza e da aristocracia iam estudar para se tornarem juristas.

Um ponto interessante a mencionar que chamou a atenção de Júlio César fora o fato de que ele disse que os pais celtas não mostravam seus filhos publicamente a não ser que estes fossem maiores de idade. César não soube explicar isso. Porém, historiadores apontam que entre os irlandeses, pelo menos entre famílias mais abastadas, havia a prática de se enviar os filhos para viverem com pais adotivos, de preferência famílias mais ricas que as suas, de forma que pudessem conceder uma boa educação para seus filhos.

Segundo Powell seguindo esse costume irlandês antigo, as mulheres viveriam na casa de famílias adotivas até os 14 anos, quando as mesmas retornavam para casa de sua família a fim de começar a se procurar um marido para ela. No caso dos homens, estes retornavam para o lar aos 17 anos, quando atingiam a maior idade. Porém Powell lembra que tal conduta não era unânime a todas as tribos e povos celtas, mas especificamente aos irlandeses.

Agricultura, pecuária e comércio

Basicamente os celtas viviam da agricultura e da pecuária, no entanto dependendo da região, eles poderiam ser mais agrícolas ou mais pecuaristas. Na Irlanda e na Escócia, os celtas eram mais pecuaristas devido ao clima frio destas terras, que prejudicava o cultivo de certas culturas. Os celtas costumavam criar vacas, cabras, ovelhas, porcos e cavalos. E tinham cães como animais de estimação. Além disso, as aldeias e vilas que ficavam próximo a rios, lagos e do mar, eram fontes de pescado.

Os celtas também caçavam, quando havia abundância de caça (javalis, patos selvagens, faisões, cervos, etc). Diferente do que vemos nas histórias em quadrinhos de Asterix, onde os gauleses se fartavam em banquetes com carne de javali, na realidade, os gauleses preferiam mais carne de porco (principalmente assada ou cozida em um grande caldeirão), pois nem sempre era fácil se caçar javalis ou encontrá-los, pois a caça excessiva reduziu as populações ou as fizeram migrar para outras regiões.

Na Gália, o cultivo do trigo e da cevada eram a base da alimentação gaulesa. Do trigo faziam o pão e da cevada a cerveja. Eles também consumiam frutas, alguns outros tipos de plantas que poderiam encontrar na floresta, e até mesmo cogumelos. Bebiam leite de vaca e de cabra e se fosse o caso até de égua. Fabricavam queijo e manteiga.

Os celtas também praticavam o comércio há vários séculos. Pelo fato de terem sido grandes ferreiros e o povo responsável pela difusão da metalurgia à base de ferro na Europa Central e Ocidental, os celtas por muito tempo chegaram a comercializar bronze, ferro, estanho e outros metais com os gregos, romanos, etruscos e até com outros povos do leste europeu. Os celtas comercializavam tanto os metais puros como também objetos de metais, pois a arte celta era uma das mais avançadas da Europa Central. Além disso, eles também comercializavam cerâmicas e escravos.

Cerâmica celta do estilo Hallstatt, encontrada em Heuneburg, Alemanha.

Por longos séculos o comércio da maioria dos povos celtas fora feito a base de escambo (troca de mercadorias) mas por volta do século III a.C na Gália surgiram as primeiras moedas conhecidas, estas feitas de ouro e baseadas no modelo das moedas de Alexandre, o Grande. Também foram encontradas moedas de bronze no sul da Bretanha e moedas de prata na Aquitânia. No entanto, nem todas os povos celtas faziam uso dessas moedas, pois os principais exemplares foram encontrados entre os territórios das Gálias e da Bretanha.

Moedas celtas de prata.

Além de vender mercadorias, os celtas, principalmente as famílias mais ricas comprovam muitos produtos que seriam considerados como artigos de luxo. O vinho como atesta Powell era um desses produtos. Foram encontradas em tumbas datando do século VI a.C na parte leste da Gália (hoje França) tumbas contendo jarras de vinho vindos da Grécia. Embora grande parte da população bebesse cerveja, o vinho era uma bebida rara naquelas terras, pois os celtas desconheciam o cultivo da uva, logo este era importado. Além do vinho, eles também compravam tecidos, joias, ouro, prata, cerâmicas ornamentadas vindas da Grécia e de Roma, etc.

Uma tigela com adornos em ouro. Datada do século V a.C do estilo La Tène.
As moradias
 
As moradias celtas variavam de região para a região. Na Celtiberia na Espanha, os celtiberos costumavam construir casas em formato circular ou ovoide. Nas Gálias, as casas tinham um formato mais retangular. Na Bretanha e na Irlanda podia-se se encontrar ambos os formatos. No entanto, essencialmente a casa das famílias comuns, tinha apenas um cômodo, o qual era sala, cozinha e quarto. Porém, as casas dos ricos eram bem maiores, e na Bretanha e Irlanda chegaram a se encontrar vestígios de casas com vários cômodos e até mesmo com primeiro andar.
Ilustração de uma casa celta.
A maioria das casas eram feitas de madeira, porém se houvesse a disponibilidade de pedras, elas eram feitas de pedras. A maioria das casas nas Gálias, Bretanha e Irlanda eram feitas de madeira. Na Celtiberia nota-se um maior número de casas de pedras em determinadas regiões. O telhado era feito de madeira e revestido com palha, peles de animais, ou outro tipo de tecido mais grosso. Na Irlanda e na Escócia, se encontravam telhados revestidos com húmus ou terra, pois ajudava a preservar o calor durante as épocas frias. Na Bretanha muitas casas possuíam um depósito no chão, o qual consistia num buraco para armazenar cereais.
“Um aspecto notável de alguns dos centros de povoamento agrícola celtas, que não podemos deixar passar em claro, era o do uso de fundos poços para armazenagem, espécie de silos, cavados sob o solo da casa ou do recinto da habitação. É de crer que estes poços tivessem sido aproveitados principalmente para armazenagem de cereais, e, pelos menos na Grã-Bretanha, eram revestidos de esteira de vime e serviam apenas por algumas estações, devido aos efeitos da umidade. Depois enchiam-nos de entulho e terra e abriam outros”. (POWELL, 1974, p. 95).
Powell conta que os celtas faziam as refeições geralmente sentados no chão, . Eles se sentavam sobre peles ou tapetes, em círculos, em torno de uma mesa baixa, onde era posto a comida em pratos e travessas. Comia-se com as mãos. No entanto, em outras regiões, os celtas faziam as refeições sentados em cadeiras ou bancos e em mesas mais altas. Em alguns casos, mesas e bancos eram postos no lado de fora, e toda a aldeia ia participar de um jantar coletivo, com música e dança. Os celtas eram conhecidos por apreciarem a música, a poesia e a dança. Tais festas eram mais recorrentes nos períodos de celebrações religiosas, em casamentos ou nas celebrações de vitórias militares.
Júlio César descrevera que os celtas não possuíam hábitos à mesa, comiam como verdadeiros bárbaros, arrancando pedaços de carne vorazmente, arrotando, falando alto, cuspindo, etc.
Porém, um fato a salientar é que os celtas tinham o costume de que quando uma visita chegava em sua casa ou tribo, oferecia-se água ou cerveja e comida, depois que o visitante estivesse alimentado, eram feitas as perguntas sobre sua procedência e sua intenção naquele lugar.
A arte
 
Fala sobre a arte celta é um assunto bem abrangente pois envolve vários séculos, no entanto devido a limitação de minhas fontes e a iniciativa deste texto em particular, farei uma explanação geral de como era a arte celta antes da total conquista romana.

A arte celta basicamente se divide em quatro fases:

  1. Estilo da Cultura de Hallstatt (900-500 a.C)
  2. Estilo da Cultura de La Tène (500 – ca. 50 a.C)
  3. Estilo romanizado: continental e insular (séc. I ao V d.C)
  4. Estilo medieval insular: irlandês e bretão (séc. V ao ca. X)
Todavia deve-se ressalvar que pelo fato de os Povos Celtas terem habitados distintas regiões do continente, não significa que eles tivessem o mesmo estilo artístico. A cronologia mencionada acima, refere-se mais as tribos gaulesas e insulares (bretões, irlandeses e escoceses), pois são os povos de quem mais possuímos informações. Além disso, dependendo da localidade das tribos, essas sofriam influência regional, tal fato é evidente que a arte celta da Cultura de La Tène sofrera influência da arte grega, etrusca, romana e cita.
O estilo da cultura de Hallstatt marca o início do começo da arte celta, onde os trabalhos em metais e outros matérias como a pedra e a madeira ainda estão sendo desenvolvidos, porém, já no final desse estilo nota-se um grande avanço na ourivesaria e na metalurgia. Na arte das cerâmicas, o estilo geométrico ainda era predominante com formas as vezes irregulares e tracejadas.
Cerâmica celta do estilo Hallstatt.
Durante o período La Tène o qual fora bem influente sobre as Gálias, a Bretanha e a Europa Central, a ornamentação da cerâmica e a forma das estátuas sofreram mudanças bem significativas. Se antes o estilo das cerâmicas era basicamente geométrico, agora nota-se desenhos de animais, de paisagens, de pessoas, de seres mitológicos, nesse caso revelando uma influência da arte cita da Ásia e da arte etrusca e grega. No caso das estátuas tanto em pedra quanto e madeira, embora sejam poucos seus remanescentes hoje em dia, a influência do modelo grego é bem visível e posteriormente do modelo romano seria ainda maior, pois os romanos governariam tais povos por  quase cinco séculos.
Vaso celta do período La Tène. Nota-se as figuras e animais e outros desenhos na cerâmica, em contra-parte as formas geométricas comuns do período anterior.
Nos ornamentos feitos de metais preciosos ou em bronze e ferro, o estilo se tornou mais detalhado e trabalhado, formas, curvas, o incremento de pedras preciosas, passou a ser visto entre os tesouros descobertos nas tumbas. Até mesmo estátuas, pelo menos bustos em bronze e ouro fora descobertos, e nesse caso a influência do estilo greco-romano era marcante.
Caldeirão de prata do estilo La Tène.
Porém, quando chegamos a Irlanda e a Bretanha no período medieval, a literatura celta começa a surgir e a ganhar mais espaço, e graças a ela a poesia e a música puderam ser preservadas, pelo menos no caso irlandês.  Entretanto, como minhas fontes não me permitem seguir por esse caminho, encerrarei por aqui essa breve explanação.

Religião e mitologia

A mitologia celta ou céltica fora uma mitologia bem abrangente geralmente dividida em três categorias: goidélica: Irlanda e Escócia; britânica insular e céltica continental. O problema é que como os celtas compreendiam vários povos, cada povo celta possuía seus próprios deuses, embora houvessem alguns deuses em comum. Além disso, haviam deuses tribais e locais, logo cada tribo celta, acreditava possuir seu próprio deus protetor (nesse caso, a figura masculina seria a guardiã das tribos, por sua vez a figura feminina estaria associada a natureza), por vez, alguns locais naturais como montanhas, rios, lagos, árvores, cavernas, etc., poderiam ser o lar de deusas. Hoje conhece-se mais de 200 nomes de deuses celtas, no entanto, alguns historiadores têm dúvida se tais nomes seriam nomes próprios de divindades específicas, ou seriam epítetos ou outro nome para um mesmo deus ou deusa.

Outro aspecto que marca a mitologia celta, é que a mesma não era tão coesa como a dos gregos e dos romanos, os deuses celtas necessariamente não possuíam atributos específicos como visto entre os deuses greco-romanos, daí Powell dizer que quando os romanos quiseram assimilar os deuses celtas-gauleses, no intuito de identificá-los a Júpiter, Marte, Apolo ou Mercúrio, curiosamente o mesmo deus celta poderia ser comparado a dois deuses romanos. Alguns deuses celtas poderiam ter vários atributos e as vezes nem sempre é claro saber qual sua verdadeira atribuição, pois muito da religião celta se perdeu na história, os melhores relatos que temos vem principalmente dos irlandeses, dos escoceses, dos galeses e dos romanos.

A religião celta antiga era de caráter politeísta, animista, dualista (masculino e feminino), naturalista (no sentido de está muito ligada a natureza e suas mudanças), uma religião ligada a magia, a qual era vista como um poder que emanava do espírito e dos deuses percorrendo o mundo e todos os seres vivos e elementos que nele existissem; acreditava em vida após a morte, em reencarnação (pelo menos por parte do druidismo), embora que não se tenha conhecimento de como era concebida a vida após a morte, os túmulos encontrados, revelaram alimentos e bebidas enterrados como oferendas ao morto, possivelmente na ideia de que o mesmo precisaria de mantimentos para poder seguir viagem até a “outra vida”.

Todavia sabe-se que os celtas possuíam uma forte ligação com a natureza. Antes dos romanos os conquistá-los, os celtas não construíam templos propriamente para seus deuses, a maioria das celebrações, ritos e festas eram feitos ao ar livre, geralmente em bosques sagrados, e em alguns casos em cavernas ou em tumbas. Alguns historiadores e arqueólogos consideram as tumbas e algumas estruturas simples com pilares e um telhado como tendo sido templos.

Dependendo do povo, os festejos poderiam ser ligados aos ciclos da agricultura como visto entre os gauleses ou ao ciclo do pastoril como visto entre os irlandeses. O ciclo de pedras chamado deStonehenge na Inglaterra é um dos locais de culto mais antigos conhecidos pelos antigos celtas. Por muito tempo pensou-se que os druidas foram os responsáveis pela construção de Stonehenge, data de pelo menos 4.500 anos atrás.

“Uma forma muito generalizada parece ter sido a do bosque sagrado, ou extensão de terreno em que cresciam tufos de árvores. Julga-se ser esta a implicação geral do vocábulo nemeton, que está amplamente distribuído em topônimos por todas as terras onde passaram celtas. Alguns exemplos são Drunemeton, o santuário e centro de reunião dos Gálatas da Ásia Menor, Nemetobriga, na Galiza espanhola, Nemetacum, no território dos Atrébatas do Nordeste da Gália, e Nemetodurum, de que derivou o nome moderno de Nanterre. Na Grã-Bretanha havia no Notthinghamshire um lugar Vernemeton, e no Sul da Escócia um Medionemeton”. (POWELL, 1974, p. 143-144).

Muito dos bosques sagrados ficavam em áreas que haviam muitos carvalhos, pois o carvalho é uma árvore sagrada para vários antigos povos europeus, incluindo os germanos, poloneses, lituanos, russos, vikings, eslavos, etc. A própria palavra druida significa (“sábio carvalho”). Júlio César diz que na Gália havia um local sagrado onde os druidas costumavam reunir-se, esse local era chamado deBosque dos Carpetos.

Acerca dos rituais antigos, os mais conhecidos advêm da literatura irlandesa, onde alguns dos principais festejos eram:

  • Samain: Celebrado no dia 1 de novembro era a festa de Ano Novo. Além disso, alguns dos animais eram sacrificados na ocasião. No ritual também entoavam músicas, cantos e se dançava. Na ocasião os celtas celebravam a vinda do novo ano e a união entre o deus tribal, geralmente chamado de Dagda com uma deusa da natureza, geralmente chamadaMorrigan, a Rainha dos Demônios.
  • Beltine o Cétshamain: Celebrada em 1 de maio marcava o início da estação quente e do crescimento do pasto, logo era a época na qual o gado voltava a pastar para engordar até o próximo inverno.
  • Imbolc: Celebrada em 1 de fevereiro pouco se sabe sobre esta festa. Sabe-se que sua celebração estava ligada as ovelhas.
  • Lugnasad: Celebrada em 1 de agosto, tal festejo estava ligado a agricultura e ao deus Lug, um dos mais conhecidos deuses do panteão céltico.
Ilustração em prata do deus Dagda.

A respeito dos deuses celtas, alguns dos principais deuses que se conhece estavam: Dagda, considerado por alguns historiadores como sendo um deus específico em si, ou talvez era um nome genérico que os celtas insulares usavam para se referir ao deus de sua tribo. Dagda ora é representado como um homem velho, de barba branca e de semblante gentil, ora é representado como um forte guerreiro, armado com clava, tendo um caldeirão e as vezes era representado possuindo um enorme pênis, possivelmente tal ideia esteja ligada a um atributo de virilidade ou fertilidade.

Uma das principais deusas adoradas entre os irlandeses, e as vezes associada como sendo esposa de Dagda era a deusa Morrigam, a qual é difícil de classificar seus atributos. Morrigam as vezes era associada a guerra, a noite, aos mortos, ao medo, a lua, ao misterioso, a magia, pois as vezes se transformava em alguns animais como lobos, corvos e enguias. Morrigam recebia os epítetos de Nemain(“Pânico”) e Badh Catha (“Corvo da Batalha”). Em alguns relatos diz-se que ela possuía duas irmãs, as deusas Macha e Medb, porém, alguns historiadores questionam se tais deusas seriam outras pessoas, ou seriam nomes diferentes para Morrigam, lhe concedendo outros atributos, tal fato é visível entre os hindus, onde o mesmo deus pode ter vários nomes. Alguns consideram que Morrigam, Macha e Medb formam uma tríade, algo comum entre os celtas, pois existem estátuas de deuses e deusas com duas faces e três faces, simbolizando três personalidades de uma mesma divindade.

Ambos os deuses Dagda e Morrigam, eram mais cultuados entre os celtas insulares (bretões, irlandeses e escoceses), entre os gauleses temos os deuses Belenus, considerado o deus do sol;Taranis, era associado ao sol, ao céu, raios e trovões; seu símbolo era a roda de oito raros, um símbolo bem difundido entre os gauleses. Toutatis, era associado a guerra, porém estava associado a proteção do lar, da tribo. Alguns historiadores questionam se Toutatis era um deus específico ou o nome de um outro deus, ou um termo genérico para um deus tribal. Eusus, é um deus que hora fora associado a guerra e hora a proteção da natureza, no entanto, junto com Taranis e Toutatis forma uma das mais famosas tríades de deuses cultuadas entre os gauleses e os bretões.

Uma deusa que fora bem difundida entre os celtas, especialmente os gauleses fora a deusa dos cavalos chamada Epona (literalmente “Grande Égua”). Embora Epona fosse a protetora dos cavalos ela possuía outros atributos ligados a agricultura, o pastoreio, a natureza, a fertilidade, etc. Fora uma das principais deusas a serem cultuadas pelos romanos, durante a época imperial. Imagens da deusa foram encontradas em templos romanos pela Itália, e até mesmo templos foram construídos na Gália pelos romanos para o seu culto. O culto de Epona pode ter sido associado ao culto das deusas romanas Cibele (deusa da natureza) e deCeres (deusa da agricultura), no entanto, seu nome mantivera intacto, e até mesmo fora lhe designado epítetos romanos e um feriado, o qual era celebrado no dia 18 de novembro. Epona também se tornou a deusa protetora da cavalaria romana e até mesmo esteve associada aos imperadores.

Outro deus conhecido entre os celtas era Lug, embora que esse diferente de Epona e outros deuses e deusas celtas não foram assimilados pelos romanos, pelo contrário, os romanos passaram a identificá-los com seus deuses, e tentar converter seus cultos para os cultos dos deuses romanos.

“O deus Lug é descrito nos tratados mitológicos como um recém-chegado à sociedade dos seres divinos irlandeses. Também ele era um deus tribal, mas de carácter menos arcaico do que os outros; as suas armas eram diferentes e o seu epíteto (samildánach) indica-o mais como senhor de todas as habilidades em particular do que do conhecimento geral. O seu nome, é claro, reconhece-se bem em Lugudunum, a moderna cidade de Lião, e certo número de outros nomes de cidades do continente”. (POWELL, 1974, p. 123).

Pintura retratando o deus Lug, um dos mais populares deuses celtas entre os irlandeses, bretões e gauleses.

A história da vida de Lug ou Lugh é bastante narrada no conjunto de textos irlandeses chamadoTuatha Dé Dannan (“Povos da Deusa Danu”), consiste numa série de histórias que falam a respeito da colonização da Irlanda pelos Tuatha Dé Dannan; a formação de tribos célticas e da cronologia e genealogia dos deuses. Entre as várias histórias que narram as proezas do deus Lug e outros deuses, diz-se que Lug era um homem prodigioso e de grande talento, o mesmo fora desafiado várias vezes a realizar distintos tipos de ofícios e os cumpriu de forma magistral.

Retomando a questão dos rituais, vestígios arqueológicos encontraram restos de ídolos em pedra, alguns até em madeira mas em péssimo estado de conservação, além de tumbas, túmulos e pilares.

“Encontra-se ainda outro tipo de monumento relacionado com o culto que merece também uma breve notícia. No Cento de Espanha e no Norte de Portugal, e geralmente associado a castos de tribos celtas ou parcialmente celas, encontraram-se grandes esculturas em pedra de varrões e touros. A inspiração para estas escultura é provavelmente mediterrânica, mas a finalidade servia aos fins dos Celtas, pois parece terem tido relação com a fertilidade e prosperidade dos rebanhos e achavam-se situadas em cercados para o gado, ou em posições que os dominavam, logo abaixo das próprias cidadelas. No Norte de Portugal encontram-se também esculturas de guerreiros armados, que parece terem servido, igualmente, de ídolos protectores”. (POWELL, 1974, p. 152).

Encontraram-se vários ossos de animais como vacas, carneiros, ovelhas, cabras, cavalos e até mesmo cães. Parece que além de sacrifícios de animais os celtas também realizavam sacrifícios humanos. Existem algumas histórias irlandesas antigas que falam de rituais onde pessoas eram sacrificadas para “apaziguar” a ira dos deuses, geralmente durante um período de fome, seca, inverno rigoroso, peste, etc. Entretanto, não existe um consenso se o ato do sacrifício humano fosse algo comum entre todos os povos celtas.

Lucano (39-65), poeta romano, dizia que os sacrifícios humanos eram feitos de três formas: cremação, afogamento e enforcamento. Segundo o seu relato, as vítimas sacrificadas ao deus Toutates eram afogadas, as vítimas de Esus eram enforcadas e as de Taranis eram queimadas. Júlio César relata que os escravos eram queimados juntos com seus mestres quando estes morriam, e que os druidas realizavam um sacrifício humano chamado de “homem de vime”, onde com vime (pedaços do vimeiro) construía-se uma espécie de “gaiola” com forma humana, então as vítimas do sacrifício eram aprisionadas dentro dessa “gaiola”, e eram queimados vivos.

Gravura do século XVIII retratando o chamado “homem de vime” (wicker man) no qual vítimas eram queimadas vivas em sacrifícios celtas.

Os celtas também ofereciam oferendas votivas para seus deuses. As oferendas votivas são oferendas que eram deixadas em locais sagrados ou próximos a estes. Júlio César e outros historiadores romanos falam a respeito dessa prática dos celtas. César diz que armas, escudos, elmos, armaduras e outros espólios eram jogados em rios, lagos, ou deixados em bosques ou outros locais sagrados. Estrabão citando Possidônio (o mesmo chegou a viajar pela Gália no século I a.C), diz que joias, barras de ouro e prata, cerâmica, vasos, comida e bebidas também eram ofertados. Na Bretanha do início da Idade Média, haviam histórias sobre espadas mágicas que haviam sido jogadas em lagos e rios.

“A referência de Possidônio a lagoas sagradas, o que também pode significar charcos ou pântanos, tem um particular interesse devido a certo número de descobertas arqueológicas para as quais não há melhor interpretação que como depósitos votivos”. (POWELL, 1974, p. 153).

Pouco se sabe como eram as celebrações destes ritos e festejos mais antigos, mas sabe-se que haviam alguns ritos que eram realizados apenas pelas mulheres, uns eram celebrados durante o dia, outros eram feitos durante noites de lua cheia ou lua nova, envolvendo fogueiras, caldeirões, sacrifícios, libações, etc. Tais ritos foram visto pelos cristãos como sendo práticas de bruxaria, e tais mulheres e homens que as realizavam foram perseguidos como sendo bruxas, feiticeiras, magos e bruxos.

Para encerrar essa parte acerca da religião e da mitologia, assuntos que rendem livros próprios para se debater o assunto do que um breve relato como esse, falarei a respeito de uma figura curiosa e ainda misteriosa da religião e da sociedade céltica, os druidas.

“A palavra ‘druida’, tal como é usada nas línguas europeias modernas, deriva do céltico continental através dos textos gregos e latinos. César, por exemplo, refere-se a druides e Cícero a druidae. Ambas são, é claro, formas latinizadas do plural. Nas línguas célticas insulares que ainda sobrevivem drui (sing.) druad (plur.) são formas da mesma palavra tiradas de tetos em irlandês antigos. O equivalente galês no singular é dryw. Como palavra considera-se que druida deriva de raízes que significam ‘sabedoria do carvalho’, ou possivelmente ‘sabedoria grande’ ou ‘sabedoria profunda'”. (POWELL, 1974, P. 160).

Gravura de dois druidas.
Falar a respeito da hierarquização dos druidas, de como eles trabalhavam e atuavam nas sociedades celtas bretãs, irlandesas e gaulesas é uma tarefa bem difícil, pois os ensinamentos do Druidismo, religião ensinada pelos druidas eram passados oralmente; os romanos e os gregos nada escreveram sobre esses ensinamentos, apenas relatam o que viram e ouviram acerca desses homens e mulheres, pois entre a classe dos druidas haviam as druidesas.

A respeito dos textos irlandeses, os primeiros relatos que achamos sobre os druidas e as druidesas datam do século VIII, já no período medieval, logo, historiadores como Powell e Ronald Hutton, dizem que praticamente nada sabemos sobre os druidas, pois ao longo da História muita coisa se perdeu e fora deturpada. Powell chama a atenção que durante a Idade Média e a Idade Moderna, os druidas ganharam um caráter semilendário, começaram a surgir histórias um tanto “fantasiosas” sobre suas pessoas.

A druidesa, pintura de Alexandre Cabanel.
Sabe-se que os druidas se organizavam em uma hierarquia embora se desconheça muita coisa a respeito de como era essa hierarquia e cada grau ou nível que se dividia e suas funções especificamente. Pela internet encontra-se vários textos a respeito, no entanto, muitos não são confiáveis, pois como fora dito muito fora inventado ao longo desses dois mil anos, ou até mesmo distorcido.
Os druidas e as druidesas além de terem uma função sacerdotal e ritualística, eles também eram magos e magas, pois a magia era um elemento profundamente encrustado na religião celta como fora visto anteriormente; atuavam como juízes, professores, filósofos, curandeiros, conselheiros, poetas,  e até mesmo como videntes e profetas, etc. A questão da poesia necessariamente não era apenas arte, mas também estava ligada ao ensino; contar histórias através de poesia era transmitir os antigos ensinamentos, pois o conhecimento e a sabedoria druídica eram transmitidos oralmente.
Além do ritual do “homem de vime” relatado por César, o historiador romano Plínio, o Velho (29-79) falara a respeito do ritual do carvalho e dos visgo, o qual era realizado pelos druidas, o que incluía o sacrifício de dois touros brancos.
Pelo fato de estarem associados a magia e ao curandeirismo, muitos druidas e druidesas possuíam conhecimentos botânicos e medicinais, e alguns sugerem que até mesmo alquímicos, embora nesse último caso, não se tem certeza. Os druidas também provavelmente teriam conhecimentos sobre astronomia e astrologia, pois entre os povos antigos era comum muitas questões religiosas estarem associadas ao movimento e posição dos astros. Todavia nada se sabe que ensinamentos eram realmente estes e como eram transmitidos. Segundo, Júlio César, os druidas eram ensinados em locais sagrados e escondidos, as vezes poderiam ficar vários anos estudando até deixarem de serem aprendizes e se tornarem druidas em si. César chegou a dizer que eles poderiam levar até 20 anos estudando, no entanto, não se tem como corroborar tal afirmação.
A respeito das pessoas indicadas para se tornar aprendizes, também não se sabe como os homens e as mulheres eram escolhidos; não se sabe se apenas era permitido que os filhos e filhas dos próprios druidas e druidesas continuassem com esses ensinamentos, ou pessoas de outras classes poderiam serem inseridas nessa educação.

Outro aspecto que marca os druidas é a sua retratação. Geralmente vemos imagens de homens velhos de longas barbas e cabelos brancos, usando longas túnicas brancas, presas por um cinto ou uma corda na cintura, trazendo na mão direita um cajado, e preso no cinto uma adaga ou uma foice de ouro. Entretanto, acredita-se que os druidas não se vestissem apenas de branco, mas utilizassem trajes em cores cinza, marrom, azul claro, ou até em mais de um tom, embora não se tem certeza acerca disso. Além disso haviam druidas mais jovens, possivelmente por volta de seus quarenta e cinquenta anos, logo nem todo druida seria homens velhos.

A questão da foice de ouro também contestável, mas alguns historiadores acreditam que tal objeto fosse puramente simbólico e possivelmente dado apenas aos druidas de níveis elevados. Outro objeto ritualístico ligado aos druidas seria a varinha mágica, objeto também questionável de existência.

Um último aspecto a ser tratado diz respeito a alguns aspectos do Druidismo. Embora os druidas cultuassem os deuses celtas, eles também possuíam seu próprio rito; sabe-se através dos relatos de Júlio César e outros historiadores romanos que os druidas acreditavam na imortalidade da alma, nareencarnação, na metempsicose (reencarnação em corpos de animais); na dualidade natural entre o masculino e o feminino, no animismo, etc.

Após a conquista da Gália, os druidas e druidesas foram perseguidos pelos romanos, pois os mesmos se opunham ao domínio romano e incentivavam revoltas contra estes. Com a ascensão do Cristianismo como religião oficial do Império Romano no século IV, a religião celta e o druidismo foram perseguidos pelos romanos agora cristianizados. Sabe-se que fora na Irlanda onde o druidismo sobreviveu por mais tempo, antes de ser praticamente esquecido da História por causa das perseguições sofridas causadas pelos cristãos irlandeses.

A guerra
 

Os celtas, pelo menos muitas tribos eram bem belicosas. Os principais relatos que nós temos acerca de como os celtas lutavam e se organizavam militarmente provêm de fontes romanas e gregas. Os gauleses da Gália Cisalpina confrontaram os romanos por vários anos, e depois fora a vez dos romanos darem o troco, indo liderados por Júlio César, conquistarem as Gálias. Os celtiberos foram alvos dos cartagineses e posteriormente dos romanos. Os bretões também não escaparam da conquista romana. No caso dos gregos, tribos celtas errantes, atacaram a Macedônia e a Grécia por vários anos, e na Ásia Menor, a colônia grega de Pérgamo e outras colônias gregas combateram os gálatas (termo grego para se referir ao celtas daquela região). Para começar a falar da parte marcial, vamos relatar primeiro como eram as armas que os celtas usavam e seus trajes. Basicamente os celtas usavam espadas de ferro e lanças. Alguns usavam machados, mas o uso de arco e flecha é pouco documentado. Pelos relatos de historiadores romanos e gregos, a força do exército celta era a infantaria leve, auxiliada por uma cavalaria leve. Eles não tinham costume de levar muitos arqueiros consigo, ou utilizar infantaria e cavalaria pesada (a designação de leve e pesado advêm do uso de armas e proteção mais pesadas ou leves).

Como fora dito anteriormente no começo do texto acerca dos trajes utilizados pelos celtas, basicamente, muitos dos soldados usavam apenas calças e sandálias, e como proteção usavam elmos de bronze ou de ferro e escudos. Inicialmente os escudos eram pequenos e redondos, sendo feitos de madeira, e as vezes com reforços em bronze ou em ferro. No entanto, foram encontrados escudos feitos totalmente em bronze, ferro e até mesmo em ouro, mas estes eram utilizados pelos chefes.

Por volta do século III a.C, o escudo redondo fora substituído por um escudo mais amplo e de formato ligeiramente retangular, as vezes com as bordas arredondas. Possivelmente o modelo fora baseado no modelo do escudo das legiões romanas. Os guerreiros também usavam túnicas de linho, lã ou de peles de animais como proteção; o uso de armaduras feitas de chapas de bronze e ferro era raro, e provavelmente restrito aos chefes. Entre algumas tribos, os guerreiros pintavam os corpos com uma tinta azul.

Desenho retratando um exército celta.

A cavalaria celta no início restringia a poucos cavaleiros e a algumas bigas, onde iam o líder da tropa, munido com arco e flecha ou lanças de arremesso, enquanto o cocheiro ou auriga conduzia a biga. Porém, as bigas começaram a serem abandonadas para darem mais espaço a um maior número de cavaleiros, os quais tinham com principais armas espadas e lanças.

“Graças a Políbio e autores subsequentes, podemos fazer uma ideia da sua actuação no campo de batalha. Tomando em consideração todos os testemunhos, podemos deduzir que a finalidade primária do guerreiro sobre rodas era correr furiosamente para e ao longo da linha da frente inimiga para inspirar terror à vista, tanto lançando projécteis omo fazendo uma barulheira terrível com gritaria, toques de trompa e pancadas nos lados dos carros, que se metiam pelos flancos ou pela retaguarda”. (POWELL, 1974, p. 109).

Políbio salienta dois aspectos interessantes: primeiro, ele diz que algumas tribos celtas tinham o costume de antes de se começar a batalha, eles colocavam um dos mais bravos de seus guerreiros para lutar em um duelo contra o mais forte dos guerreiros do oponente, uma espécie de rito de honra marcial, para testar a força do oponente e ao mesmo tempo insultá-lo, em caso de seu “campeão” fosse derrotado. Concluído esse duelo a batalha se iniciava.

Desenho ilustrando uma cavalaria celta.

O outro aspecto que Políbio chamava a atenção era que os celtas não possuíam uma disciplina militar assim como as legiões romanas já possuíam naquele tempo. No século I a.C as legiões romanas já eram um exército profissional, pois antes disso, os soldados eram convocados apenas quando haviam batalhas, porém a partir do final do século II a.C, os exércitos se tornaram fixos, e os soldados passaram a terem anos de serviço prestado, e a receberem um treinamento militar homogêneo. Outro fato era a questão de que os soldados romanos tinham a noção de que eles estavam servindo a pátria, a grande Roma. Já nos celtas, cada tribo lutava por si, embora se unisse com outra tribo, tal aliança era apenas para aquele momento, pois embora todos fossem celtas, não havia uma noção de identidade nacional.

Enquanto os soldados romanos eram rigorosamente disciplinados e tinham outras tarefas para fazer, os soldados celtas não eram tão disciplinados assim, e quando não estavam em guerra, acabavam por irem trabalhar em outras atividades ou se tornavam mercenários. Políbio e outros historiadores dizem que as tropas celtas eram muito barulhentas, caóticas e corriam gritando como loucos. Os gaesatae(lanceiro) iam para o campo de batalha nus, pois de certa forma sua nudez era uma afronta para os romanos e uma ideia simbólica que sua coragem era tão grande que ele ia para a luta pelado e sem proteção alguma. No entanto, nota-se que nos últimas décadas dos celtas antes da conquista romana tal costume fora sendo abandonado.

Mas se por um lado, os gritos, a nudez, a falta de disciplina eram vistos como motivos para serem chamados de bárbaros, os celtas também eram conhecidos por decapitarem seus oponentes, exibindo a cabeças destes em pontas de lanças, ou amarradas nas bigas. Em alguns casos sabe-se através de vestígios e relatos, que se os celtas saíssem vitoriosos, eles levavam as cabeças decapitadas para a aldeia onde as exibiam como troféus de guerra e até mesmo as ofereciam como oferendas em santuários. Na Bretanha, destaca-se o uso de fundas e lanças de arremesso, algo que era pouco utilizado pelas tribos do continente. Além disso os celtas insulares, também usavam vários tipos de lanças.

Políbio também narrara que os celtas quando saíam vitoriosos de uma batalha realizavam grandes festins. Nesse caso o rei ou chefe era homenageado com presentes, espólios de guerra ou de pilhagem; recebia canções ou poemas, além de se realizarem um grande banquete regado a cerveja, vinho, pão e muita carne de porco, vaca ou carneiro, acompanhado de música, cantos e danças.

“Na Irlanda considerava-se que, para um campeão, a dose por excelência era um porco inteiro, e num túmulo com carreta no Champagne achou-se o esqueleto completo de um. A dose do campeão era causa frequente de disputa e levava a combates ali mesmo, como relatam Diodoro e Ateneu e como está tão bem ilustrado nos contos irlandeses do Festim de Bricriu (Fled Bricrend) e no Conto do Porco de Mac Datho (Scéla Mucce Meic Dathó)”. (POWELL, 1974, p. 114).

A respeito de mulheres na guerra pouco se sabe. Entretanto, os relatos apontam que não era uma prática comum entre os Povos Celtas deixarem as mulheres irem para o campo de batalha, tal prática ocorria entre algumas tribos na Bretanha, Escócia e na Gália. Dentre as mulheres guerreiras que são pouco conhecidas a mais famosa fora a rainha BoadiceiaBoudica ou Buddug em galês, a qual vivera no século I d.C.

Boadiceia era rainha da tribo dos Icenos na Bretanha. Os Icenos habitavam o que hoje é o atual território de Norfolk. Seu esposo o rei Prasutagus morreu por volta do ano de 59 ou 60. O rei Prasutagus havia feito um acordo com os romanos anos antes em 43 quando o imperador Cláudiotransformou a Bretanha em província romana. Prasutagus e outros reis celtas acabaram se tornando “vassalos” do imperador romano, em troca manteriam certa autonomia perante o Império Romano. No entanto, o rei não deixou filhos, mas apenas duas filhas, porém em seu testamento ele concedia direito legítimo de sucessão a sua esposa e filhas.

Segundo o historiador romano Tácito o qual escreveu acerca da rainha celta, o mesmo nos conta que os romanos não cumpriram com o pedido do rei, e Boadiceia fora açoitada, afastada do trono e suas filhas estrupadas. A partir dessa traição dos romanos, Boadiceia mesmo assim tomou a frente de seu povo e decidiu iniciar uma revolta.

Ilustração retratando a rainha celta Boadiceia dos Icenos.
O historiador romano Dião Cássio (ca. 155-229) descreve Boadiceia como tendo sido uma mulher alta, de longos cabelos ruivos e de uma voz firme e potente, além de ser corajosa. Entre o ano de 60 e 61, Boadiceia reuniu algumas tribos vizinhas e partiu para confrontar os romanos, atacando cidades, acampamentos e bases, causando grandes danos aos mesmos, até finalmente ser derrotada pelas legiões do general Gaio Suetônio Paulino, então governador da Bretanha.
NOTA: Hoje em dia ainda existem pessoas que falam algumas línguas célticas, tais pessoas vivem principalmente na Bretanha, região da França; no País de Gales, na Cornualha (região do sudoeste da Inglaterra), nas Ilhas de Man (entre a Inglaterra e a Irlanda), na Irlanda e na Escócia.
NOTA 2: Não se sabe ao certo quantas tribos celtas existiram pela Europa, mas acredita-se que o número tenha passado de mais de cem tribos, pois só nas Gálias haviam mais de trinta destas.
NOTA 3: Nas histórias em quadrinhos de Asterix, essas narram as aventuras de uma pequena aldeia gaulesa durante o ano de 50 a.C. Além dessa tribo, a série menciona outras tribos gaulesas como os belgas, arvernos, helvécios e os bretões.
NOTA 4: O druida Panoramix é o mais famoso druida da série de Asterix, o responsável por fazer a “poção mágica da super-força”.
NOTA 5: O famoso Mago Merlim das Lendas Arturianas seria um druida.
NOTA 6: Nas Lendas Arturianas ou Ciclo Arturiano, no qual conta as histórias do Rei Arthur, diz-se que a famosa espada Exacalibur se encontrava dentro de um lago na mítica Ilha de Avalon, a espada fora oferecida ao rei pela Fada Viviane, também chamada Senhora do Lago, guardiã do lago. Viviane  também fora amante de Merlim.
NOTA 7: Alguns aspectos da mitologia e da religião celta ainda se encontram hoje sendo retratados em alguma religiões neopagãs como a Wicca e o Neodruidismo. Embora que tais religiões para muitos sejam consideradas como bruxaria.
NOTA 8: Na animação da Disney/Pixar, Valente (Brave) de 2012, onde narra a história da princesa escocesa Merida a qual parte em busca de aventura para salvar seu reino de uma antiga maldição; a personagem fora parcialmente baseada na rainha Boadiceia, pois Merida possui longos cabelos ruivos encaracolados.
NOTA 9: Em alguns jogos da série The Legend of Zelda da Nintendo, o protagonista Link possui uma égua chamada Epona.
NOTA 10: Os irlandeses foram os principais responsáveis por preservarem muito da mitologia e do folclore celta antigo.

 

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